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ACOMPANHANTE DE LUXO
Centro de Dia só por um dia!
Dona Vlassova & Guests [artista]
2010.06.16

“Bem-vindo, Futuro Utente!”
Ricardo Seiça Salgado (antropólogo e performer)
 
Convidados para experimentar um Centro de Dia por um dia é a proposta de Dona Vlassova & Guests (artistas reais de Lisboa), no âmbito do Festival Alkantara. Durante o dia é-se convidado a conhecer a vivência do Centro Social da Sé da Casa da Misericórdia de Lisboa, na condição de futuro utente. Conversa-se com a directora do centro, fazem-se os testes e avaliação com as técnicas para se estar apto a integrar as actividades que o Centro nesse dia promove (ginástica, dança, expressão plástica, etc.). Ao som das palmas rítmicas, inconfundíveis, que se ouvem junto às escadas, faz-se fila para a refeição. E no ritmo de uma outra digestão, é-se entrevistado na rádio efémera do Centro por estes dias, a “Rádio Moxico” (evocando a rádio homónima de Angola), transmitida em AM e nas colunas que difundem o som para o jardim que cerca o Centro.

 O espaço é uma antiga casa senhorial que transpira a sua energia Bũnueliana, com a diferença de ser a cores e real. Na perspectiva de espectador (por esta altura, esquecemo-nos com facilidade de que o somos), a realidade da ficção funde-se com a experiência da realidade persuasiva (diria, ainda, na forma de ficção) porque, na verdade, é de um espectáculo que se trata. A ficção torna-se realidade porque se sedimenta, como na vida documentada. Quer dizer, por esta altura, parece que não há actores. Não há actores nem actrizes (apesar de eles estarem lá, apenas não aparecem como tal), aparecem invisíveis no seu papel, aparecendo apenas como pessoas que habitam um Centro de Dia. E o público? São as visitas que se querem como actores, são futuros utentes por um dia. Como os actores são invisíveis, também a condição de idoso o é. Pelo menos, invisíveis no sentido social. São aqueles de que não se fala nem se vêem, melhor ainda, de que não se quer ver, atirados para além da margem (de forma a não poderem ser abrangidos/protegidos pela lógica do poder). Então, se são invisíveis os actores e os sujeitos protagonistas (na sua dimensão social), não estaremos nós, público, a viver uma ficção, a habitar um não-lugar? Se os actores não o são, e há a inversão de papéis (o público como actor), então o lugar do não lugar que agora se apresenta não é a realidade, mas mais perto de uma ficção. Pois. A tensão começa.

 Não sendo permitida a estadia durante a hora vespertina para o jantar, obrigam-nos a um distanciamento para uma merenda rápida na zona da Sé. Faz lembrar haver apenas uns trocos pela falta de tempo para comer à mesa e o espectáculo propriamente dito começa às 19h. O espectáculo está dividido por capítulos. Como nos diz o programa, “uma narrativa livre dos dias que passámos no Centro Social da Sé”. São dias, muitos, que agora se apresentam no limbo do dia para a noite. É logística necessária ao evento, mas também soleira da vida para a morte, limiar do real para a ficção. Vamos morrendo, quer dizer, vivendo!

“O primeiro dia” é passado no hall de entrada. Toda a audiência expectante e especada à espera do início do espectáculo. Penso na tarde que passei. Convidam-nos para uma selva evocando, estereofonicamente, Tarzan. A selva da vida, pensa-se; o imaginário colonialista, evoca-se. Os actores reais espreitam na porta depois das funcionárias ultra-reais darem o mote do início do espectáculo. Bebo o meu último gole de água, da garrafa de um dia muito quente. Entramos com a mostragem de uma placa a sinalizar o capítulo: “todos os dias”. A ordem sonora é de poder circular pela casa, desde que não se abram portas, que não se abram portas…

O público circula pela casa que não tem ninguém, se é que se está à espera de pessoas. Apenas arquitectura, sonoridades em cada sala (que despertam à atenção de um espaço funcional), e uma subtil interacção entre as únicas pessoas que circulam, a audiência, e de que eu faço parte. Afinal somos actores, e a nossa experiência vivida, a cena ao vivo! (Será o público uma ficção quando se torna actor no espectáculo?). “Ah! O que é que é aí?”, ouço ao meu lado. “É só arquitectura. É a lavandaria”, responde-lhe o companheiro. “Deixa estar, então”, responde-lhe desinteressado o interlocutor, como se a ficção da realidade não existisse. Caminho pela casa, agora vazia de (ultra) actores reais. Como eu me enganava. (Re)conheci as salas (2 pisos com salas de estar, lazer, trabalhar, imaginar) do “deixa estar” do outro, desse lugar que rapidamente, com ninguém, se transformou na experiência de uma viagem pelo vazio (apesar da arquitectura e dos adereços ultra-reais, feito antiquário). O público caminha de sala em sala num fluxo que parece curioso e se transforma num mecanismo colectivo de experimentação do espaço, de um todo que vai para ali e para acolá, de sala em sala. Estamos num espectáculo e, de repente (só podia ser), a ultra-realidade eram os fantasmas que ali habitavam e que em nada incomodavam, como se fosse uma exotização de uma ficção que, afinal, estava a ser real (é a morte).

Porque foi orgânico o movimento colectivo da audiência tornou-se fácil ver, e todos viram uma nova placa, um novo capítulo, “rock’ n’ roll”. No átrio das escadas do primeiro andar, uma porta abre-se, “surpresa!”. Entravamos agora numa sala ampla com todos os actores ultra-reais ao fundo (viam-se também os reais), agora sim, para uma ficção dramática (pensa-se), um palco com actores e uma audiência (para além dos fantasmas).

Em forma de espectáculo de variedades, os actores ultra-reais (os idosos que se auto-representam), na sua idade avançada, cantam-nos canções, um a um, em coro, canções de um tempo que nos faz renascer, de uma portugalidade que imaginamos perdida (e tantas vezes sem sentido). Uma realidade que, afinal, toma a forma de ficção. O público assistia, de facto a um espectáculo. Havia os masters of ceremony idosos da sessão que apresentavam as canções e os idosos que representavam cantando-as (para quem não conhecesse tinha a tradução em inglês projectada na parede – estávamos num festival internacional). Só podia ser uma ficção! O que é facto é que uma energia embarcou no grupo que representava, uma energia tal que de imediato me comoveu. Não pela exotização da velhice, não pela piedade, não pela freakilização que poderia haver, nada disso (e creio que para todos), mas pela sensibilidade, dignidade e humildade que se apresentavam defronte de nós, a cantar e depois a dançar (com os actores, com a audiência), porque depois do concerto houve um baile no centro da sala, em volta do público que também participou. Comovi-me por adivinhar uma história-fantasma que ali vi nas personagens ultra-reais, uma ficção persuasiva. Comovi-me (lágrimas visíveis mas silenciosas, daquelas que dão prazer sem denunciar), pela dor daquela gente que entrevi sem saber, pela ficção que se me entranhou como real. Por excesso, parecia que o concerto, e depois o baile, não tinham fim, que era aquilo a vida (que a ficção afinal, fez brotar o real que eu imaginei).

No tempo certo, felizmente para mim, uma saída da sala em marcha popular fez aparecer outro capítulo. Agora, os actores reais dividiam a audiência (também actores de uma realidade ficcional, diria simplesmente: actores), são convidados a fazer o seu percurso. Estava visto que iríamos separados, cada um para a sua ficção; não (quero dizer): realidade; não: vida; não: morte? Sim! Os velhinhos disseram o que tinham a dizer, parecia… a dança da vida.

O meu percurso levou-me para o capítulo “Andam aqui artistas”. Um grupo de pouco mais de uma dezena de pessoas foi dirigido para o jardim onde, com esta temperatura, tinha sido servido o lanche, à tarde, de dia. A funcionária mais antiga do Centro explicou a biografia do edifício, história que é feita de aristocracia que (como é usual para quem estuda história) se degrada, desta vez pela aposta no jogo (e que conduziu à penhora dos seus bens) daqueles que associam a busca da vertigem na voluptuosidade do pânico, um estonteamento de quem desvanece a realidade na sua mais pura ficção, o facto do dinheiro da aposta se tornar vício da falta de prazer na vida (de não necessidade de trabalho e, talvez, de amor), ali por alturas de uma revolução de Abril. Pois. Foi o mote para conhecer a Sra. Z., uma senhora de pouca conversa que apenas requer que lhe perguntem pela vida (ficção?). Engana, porque porta um livro de poesias de Bocage. No jardim, ao lado, e antes de falar com ela, está uma casa com um pequeno e curto telhado. É contígua ao limite do jardim, da propriedade e, quando se entra, se vê que tem 1metro por 5metros. Como é possível uma casa de madeira de 1x5? Numa extremidade está um ecrã de tv com a Sra. Z. a citar Bocage. Agora não chorava, gargalhava. E depois, lá estava ela, à espera, lendo Bocage, agora na realidade (ficção da ultra-realidade?), a ultra-actriz pronta a responder ao que se lhe perguntasse. Lia mas não sabia escrever; vivia naquela casa apesar de agora não estar lá, por causa do espectáculo (a sua casa real fora transformada em ficção?); sempre fora caseira desta propriedade, mesmo quando os donos desapareceram, hipotecando a casa numa aposta; sempre viveu só por ali; sempre tomou conta de tudo. Agora não há ninguém que cuide das telhas, que sulfate as uvas das parras que insistem em produzir uva; tudo parece um pouco perdido, apesar de a palmeira continuar a crescer (e ser uma das mais antigas desta zona de Lisboa), de haver ameixas (vermelhas e amarelas), e limões, e nêsperas, e ela ter refeições do Centro, e ir à missa ao domingo (independentemente da igreja) e de passear de seguida e continuar só, e apenas responder ao que lhe perguntam. E, depois do espectáculo, voltar à sua casa de 1mx5m. E da ideia de nada parecer ter mudado neste país, a não ser, talvez, o facto de agora a casa dela ser uma ficção, de toda a realidade só poder ser uma ficção.

Chamaram-nos para outro capítulo. Carambas! Capítulos
Sua Excelencia Presidente da República