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Será que alguém poderá dizer
"Já sei o suficiente do passado posso dedicar-me ao futuro?"

Com esta pergunta, uma das muitas de Segunda-Feira, Cláudia Dias e Pablo Fidalgo Lareo dão o tom ao 14ª Alkantara Festival. O espetáculo começa no ano mágico de 1974 (ano da Revolução de abril, mas também do mítico combate entre Ali e Foreman em Kinshasa) e é apenas um dos vários títulos presentes num festival de artes contemporâneas que se debruça sobre o passado ou que procura conectar-se com a tradição.

As nuvens escuras que pairam sobre a Europa (e, no fundo, um pouco por todo o mundo) inverteram o clássico antagonismo progressista versus conservador. Hoje ser-se “progressivo” no sentido mais lato do termo (isto é, acreditar que podemos fazer melhor enquanto sociedade) significa tentar preservar um conjunto de valores contra forças que os vão lentamente consumindo. Nesse sentido, os progressistas esforçam-se por conservar; os conservadores lutam pela mudança.

Tudo isto poderia apresentar-se de uma forma negativa. Em vez de criar novas visões para o futuro estamos provavelmente demasiado focados numa luta à retaguarda. É de salientar, contudo, que este conservadorismo progressista tem, pelo menos, a valência de nos relembrar que o progresso nunca é um processo linear e que nos obriga a repensar a nossa relação com a história.

Alguns dos artistas desta edição vêm de partes do mundo que, na sua história recente, viveram momentos drásticos de rutura (descolonização, revoluções...) e dão voz a uma perceção crescente de que temos de regressar ao ponto em que rompemos com o passado para que possamos entender quem somos, onde estamos (e talvez essa rutura não tenha sido tão radical quanto pensávamos) e para onde vamos. Esta é uma ideia muito presente no trabalho do Artista na Cidade Faustin Linyekula, que ao longo da última década tem utilizado o seu corpo e o dos seus cointérpretes em palco como um meio de ligação ao passado. Tanto Taoufiq Izeddiou como Radouan Mriziga, ambos oriundos de Marraquexe, criam, de formas opostas, elos entre a sua dança contemporânea e a herança de uma riquíssima cultura islâmica – que vai muito além dos clichés que infetam o modo como o ocidente olha para o mundo árabe.

Outros ainda investigam as origens das suas próprias práticas artísticas. Takao Kawaguchi mergulha até à tradição do butô do pós-Segunda Guerra Mundial e centra-se num dos seus fundadores mais radicais e coloridos, Kazuo Ohno. Christiane Jatahy e tg STAN partem de textos de Anton Tchechov (respetivamente As Três Irmãs e O Cerejal) para retratar temas contemporâneos como a emigração. Os Contos de Joselín revisita um dos tesouros escondidos da cultura popular galega e as suas sempre relevantes histórias de poder, morte e dinheiro. Joris Lacoste, por seu turno, recorre ao stock inesgotável da palavra falada e sobrepõe expressões vocais extraídas da cacofonia do mundo - discursos políticos, conversas telefónicas, uma aula de ginástica, palavras de amor e ódio – para redefinir a forma como essas palavras ressoam juntas, libertando o seu potencial dramático, trágico ou cómico. Roger Bernat abre-nos as portas da história do cinema para explorar a sempre difícil relação entre o público e a intimidade. E Colletif Jambe regressa às origens dos jogos para entender as noções básicas das regras e das leis na sociedade.

Contra a globalização da cultura, tantas vezes fachada de um mercado globalizado que põe em risco o controle sobre os nossos destinos, outros criadores tendem a focalizar-se em questões locais que, ainda assim, continuam a ter um eco universal. Ao colocar em palco o seu irmão Yasser, Rabih Mroué revisita o cenário trágico da guerra civil libanesa, levantando questões de memória e de representação. Arkadi Zaides, através das câmaras do projeto B’Tselem, olha para o impacto de meio século de ocupação na sociedade israelita.

Por mais díspares que sejam as motivações e as línguas destes criadores, há um ponto em comum: o olhar que lançam ao passado não é nostálgico, mas sempre crítico, delicado e incisivo. E muitas vezes repleto de humor sério: El Conde de Torrefiel e o seu retrato de uma geração europeia perdida; Federico León a jogar ping pong com o seu próprio processo criativo; Philippe Quesne a reunir Platão e um grupo de toupeiras numa caverna, algures entre Altamira e um abrigo atómico. Todos eles demonstram que profundidade e ligeireza não são insustentavelmente opostos.

O Alkantara Festival 2016 permanece um exercício de fazer muito com muito pouco. Se não houve uma evolução substancial da precariedade das condições relativamente a 2014 – quando tornámos público o risco da não continuidade – optamos por continuar a atravessar o oceano, tal como a maior parte do sector cultural em Portugal. Animados pelas recentes mudanças políticas do país, perguntamo-nos se a cultura será capaz de restaurar a sua viabilidade e capacidade de desempenhar um papel vital nos grandes debates da sociedade. Um futuro próximo dirá se esta é mais uma apreciação ingénua ou se há realmente terreno fértil do outro lado.

Thomas Walgrave e a equipa do Festival Alkantara