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Editorial
Há vinte e cinco anos, um pequeno grupo de coreógrafos talentosos e teimosos, confrontado com a falta de oportunidades para mostrar e produzir o seu trabalho, organizou o primeiro festival Danças na Cidade, na antiga Central Tejo. Muita água correu debaixo da ponte desde então. A cidade transformou-se radicalmente (a Central Tejo, só para dar um exemplo, faz agora parte de um ambicioso complexo cultural, propriedade de uma EDP privatizada), tal como o país e o mundo. Mas, ao responder a este contexto em constante mudança, o Alkantara tem permanecido fiel às suas origens como lugar onde artistas e públicos correm riscos e se libertam do medo de cair, como ilustram André Lepecki e Christiane Jatahy, nos dois extremos deste período de vinte e cinco anos. Da vertigem ao abismo.

Vinte e cinco anos pedem uma comemoração. Convidamos três artistas do primeiro Danças na Cidade - João Fiadeiro, Vera Mantero e Aldara Bizarro - para criarem novos trabalhos para o festival e assim darem o tom para a celebração. Procuramos explicitamente evitar a armadilha da Nostalgia (e a sua parente próxima, a Vaidade). Queremos antes fazer uso desse momento para fazer um balanço e olhar para o futuro. Não é coincidência o facto de apresentarmos uma série de projetos que assinalam comemorações, como Five Days in March de Toshiki Okada (reposto quinze anos depois da sua estreia e da invasão do Iraque, conduzida pelos EUA), ou Transobjeto de Wagner Schwartz, que tem como pano de fundo o 50º aniversário do Tropicalismo. Projetos que olham para o modo como as formas, linguagens, ideias e convicções - e até os objetos, acontecimentos ou histórias - se transformam ou reformulam constantemente. Este interesse pela dinâmica em detrimento do estado sólido das coisas é partilhado, de alguma maneira, por todos os artistas do nosso programa, e dos programas dos últimos vinte e cinco anos. Porque está no coração da arte que desafia o status quo e tem a ambição de ser revolucionário, no sentido mais lato e menos dogmático da palavra.

Vinte e cinco anos e quinze festivais. Por trás destes números esconde-se outra comemoração, infinitamente mais modesta. O Alkantara Festival 2018 vai ser o meu quinto e último. Isso talvez explique porque é que este programa é mais pessoal, reunindo artistas que são incansáveis nos seus esforços para reformular questões e redefinir linguagens, e por quem a minha admiração, ao longo dos anos, se tem convertido em afinidade.

Depois do festival, deixo a organização para retomar a minha prática artística. As minhas funções no Alkantara serão assumidas pela Carla Nobre Sousa e pelo DavidCabecinha, dois representantes de uma nova geração que, estou certo, irão zarpar por novos mares, com todos os riscos que uma expedição deste género acarreta. E é bem provável que, daqui a vinte e cinco anos, ainda estejamos a falar da vertigem e do abismo.

Thomas Walgrave